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TRÊS LAGOAS 111 ANOS - UM TRIBUTO AOS NOSSOS HERÓIS DESBRAVADORES

Legenda da foto: 1 - Cel. Antônio Trajano dos Santos em idade avançada, 2 - Adolfo Pereira dos Santos, filho de Trajano, ajudou a desbravar a região, 3 - Antônio Trajano e sua esposa, 4 - Cel. Protázio Garcia Leal e 5 - Cel. Alfredo Justino de Souza, desbravador da região e membro da família Garcia Leal.

Na atualidade, a nossa querida cidade de Três Lagoas é conhecida por sua pujança e extraordinário desenvolvimento industrial, graças à sua localização privilegiada e à farta disponibilidade de energia. Todavia, esta rica cidade nem sempre teve tais dimensões, muito menos estava numa região considerada de prestígio; pelo contrário, nos confins do Brasil interior, desbravadores de origem europeia abriram matas e formaram pastagens, instalando-se de forma precária e crendo esperançosamente no futuro.

Pode-se afirmar que sua fundação e povoamento se devem à frente colonizadora liderada e iniciada pela família Garcia Leal nos idos de 1829, culminando na fundação da cidade de Paranaíba. Este clã mineiro, com raízes fincadas em famílias de bandeirantes paulistas, mudou o destino do selvagem sul de Mato Grosso. Em conjunto com outras famílias de igual importância, abriu estradas e formou fazendas, lidando com inúmeras tribos indígenas, cujo contato nem sempre foi amistoso. É certo dizer que grande parte acabou em conflitos que culminaram na vitória daquele pequeno grupo de famílias de origem portuguesa.

Em princípio, estes criadores de gado contavam com mão de obra escrava africana, assentando-se seu poder político na força econômica da agropecuária e em cargos políticos de prestígio local. É nessa vila interiorana que chega a família Pereira dos Santos, originária de Passos, Minas Gerais, liderada por Antônio Pereira dos Santos e Francisca Rosa de Azevedo. Sabe-se que retornaram para Minas Gerais, mas seus filhos deixaram descendência ilustre na região, destacando-se com maior vigor o Coronel Antônio Trajano Pereira dos Santos.

Antônio Trajano, pecuarista de boa família, desposou Maria Lucinda (Garcia) de Freitas, filha do abastado fazendeiro Anicézio Ferreira de Mello e de Laura Garcia de Freitas. Era, portanto, neta do abastado Alferes Januário Garcia Leal, um dos fundadores de Paranaíba e irmão do homem mais importante daquelas bandas, o Capitão José Garcia Leal. Seu sogro chegou a ter propriedade com sede em alvenaria e número considerável de escravos, além de vastidões de terra que indicavam sua posição social elevada. Entretanto, investigações por meio do livro editado pelo ilustre professor Hildebrando Campestrini, fundador do IHGMS, demonstram que ele teve problemas financeiros que o colocaram num patamar bastante reduzido no fim da vida, fato este atestado pela análise de seu inventário e do de sua esposa.

Apesar disso, herdou importante quinhão de terras na Sesmaria do Campo Triste, nas proximidades da atual cidade de Três Lagoas. A colossal posse chegou a contar com 140 mil alqueires no tempo de João Ferreira de Mello, avô de Maria Lucinda, permanecendo como uma propriedade improdutiva e difícil de ser explorada. Antônio Trajano, presume-se, viu a oportunidade de crescer indo viver na dita posse, comprando-a do tio de sua esposa, Francisco Ferreira de Mello, e instalando-se posteriormente numa localidade conhecida como "Retiro das Telhas".

No mesmo período, outros herdeiros da sesmaria se interessaram em desbravar e consolidar a posse definitiva daquelas vastidões que lhes pertenciam apenas no papel. Diga-se de passagem que o descobridor das três lagoas teria sido o coronel Protázio Garcia Leal, na época ainda um criador modesto de reses para seus sobrinhos Francisco Januário Garcia e Bibiano Garcia Leal. Abriu caminho nos espinhosos arbustos do cerrado, empreendendo uma rota comercial que abastecia as fazendas de sal para bois. Montou sua fazenda na região do Piaba, acumulando mais de 60 mil hectares e milhares de cabeças de gado bovino. Não é à toa que se casou com sua prima Ana Garcia Ferreira, filha de Francisco Ferreira de Mello e Delfina Garcia Leal, ou seja, sua sogra era também sua tia paterna. Importante ressaltar seu parentesco com a família de Antônio Trajano, cuja esposa era prima de Protázio e filha de sua tia paterna, Laura Garcia de Freitas.

Estes arranjos familiares entre clãs próximos e a endogamia atestam uma estratégia de preservação patrimonial e de alianças familiares, além de confirmar as palavras do Visconde de Taunay, segundo as quais era prática cultural dos Garcia se fecharem para preservar sua "origem abastada e excepcional" dos demais elementos da sociedade sertaneja local. Esses vultos de maior destaque não anulam a figura de Luís Corrêa Neves, primo de Protázio Garcia Leal e de Maria Lucinda (Garcia) de Freitas, que se destacou pela fortuna e pelo desbravamento na região do rio Quitéria.

Além desses nomes mais conhecidos, salientam-se os outros ramos da poderosa família Garcia, como os casos dos Garcia Tosta, Ferreira Leal, Vida, Ferreira de Medeiros, Silva Latta, Marques Garcia, Nogueira e Leal de Queiroz, entre muitos outros. Clãs que transformaram a posse das terras em um oligopólio de poucas famílias com parentesco próximo, que se fundiu com o tempo numa mesma rede familiar. Todos descendentes dos três irmãos Garcia e de outros desbravadores que assumiram a mesma responsabilidade e empreitada de abrir caminho para a prosperidade e a civilização naquelas bandas.

MARCAS DA FERROVIA E DA IMIGRAÇÃO


Com certeza, a chegada da Ferrovia Noroeste do Brasil mudou o rumo da região e transformou uma fazenda típica do interior em uma cidade. Foi sua localização estratégica e sua geografia aprazível que atraíram inúmeros migrantes e alimentaram a ambição dos administradores e engenheiros em transformar a propriedade do Coronel Antônio Trajano em um espaço urbano moderno. Cabe dizer que a visão do fazendeiro ajudou a constituir os alicerces da cidade, pois, ao perceber que aquilo era um fato consumado, doou 40 alqueires paulistas para a sede de Três Lagoas.

Apesar de apoiador do projeto, logo decidiu mudar-se para uma posse que adquiriu no Alto Sucuriú, denominada Campo Triste, que em seu auge contou com 20.773 hectares. Lá faleceu e deixou descendentes, sendo seus bisnetos Ronaldo Antônio Ottoni Costa e Regina Lúcia Ottoni Costa os últimos a terem parte dessas terras. Outros descendentes seus se destacaram como proprietários abastados na região, e sua neta, dona Antônia Ferreira de Mello, junto ao marido, o tabelião Juscelino Ferreira Guimarães, fundou em 1936 o distrito de Pouso Alto, doando 3.600 hectares de seu latifúndio, na época dentro do município de Três Lagoas (atualmente o distrito pertence ao município de Paraíso das Águas).

Já Protázio Garcia Leal, pecuarista ainda mais abastado que Antônio Trajano, deixou descendentes conhecidos por serem políticos atuantes, como é o caso de Benevenuto Garcia Leal e Ranulfo Marques Leal, que chegaram a governar Três Lagoas. Dos outros ramos, não faltaram pecuaristas e políticos de destaque, o que levaria a se escrever outro artigo. Inclusive, se fossem mencionados os municípios que são filhos de Três Lagoas, como Água Clara e Selvíria, ainda mais espaço se faria necessário.

Os imigrantes de diversas nacionalidades também se fizeram presentes na cidade que completa 111 anos de emancipação política, destacando-se portugueses, japoneses e sírio-libaneses. Estes últimos legaram figuras como o saudoso ex-governador Ramez Tebet e a família Zaguir, detentora, meritoriamente, da função de guardiã da história local. Convém dizer que boa parte dos negócios realizados no município passava por estes intrépidos desbravadores do comércio, empreendedores que arriscaram o pouco que tinham, construíram fortunas e conectaram a cidade às tendências do restante do mundo.

Por fim, a construção do complexo hidrelétrico e termelétrico, sua industrialização e modernização recentes são consequências diretas de quem, no passado, acreditou que esse lugar tão especial pudesse gerar valorosos frutos. Não se pode afirmar com certeza, mas, se os idealizadores de Três Lagoas pudessem ver o que ela se tornou, estariam orgulhosos de que do seu labor surgiu uma cidade tão forte.



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